CABEÇA DE HOMEM
December 26, 2007 by Salomão Filho
Filed under Variedades

Amanheceu. O ruído da estação o acordada como de costume. Hoje não iria ao trabalho. Levantou-se e iniciaria a rotina de cada dia se não houvesse notado o objeto no outro lado do cômodo. Fitou-o: extremidades enferrujadas, ofuscado pela ação do tempo. Fitava-se; era o espelho. Atrás dele identificou uma silhueta… parecia familiar. Reconheceu-a após alguns segundos…Sim, lembrou-se que com ela se encontrava com uma certa freqüência…mas isto fora há muito tempo, quando o espelho era jovem e sua mente ainda transparente.
Com sede, bebeu o café. O mesmo que preparara na noite anterior. Enquanto bebia, se lembrou do que estaria fazendo se ainda estivesse empregado. O café estava amargo, mesmo assim continuou a beber. Abriu as cortinas empoiradas, tossiu. Sentou-se ao pé da cama, ainda a olhar-se no espelho. A luz da manhã já começava a iluminar o cômodo quando se indagou: “quem era aquele atrás do espelho?”. Não era mais filho de seus pais – que Deus os tenha – seus amigos agora já não eram, esposa nunca teve – quanto menos filhos – e perdera o emprego. O diretor da indústria resolvera diminuir os gastos e com isso, junto a ele, dezenas de outros empregados deixaram de ser… empregados. Já não era nem filho, nem amigo, ou marido ou pai. Não era.
Aproximou-se do espelho procurando interpretar as pequenas imagens que separadas se formavam, porém o esforço era em vão: elas já não faziam sentido. Aliás, já não faziam sentido há algum tempo, porém só hoje fora capaz de perceber. Estava tonto. Há algum tempo já não comia, e também não sentia fome, nem mais sede, nem nada além de frio. Apenas o frio que lhe subia as pernas, e como suas veias se espalhava pelo corpo, penetrando por entre os músculos, por entre os ossos… E também não tremeu, já não era necessário fazê-lo.
A tontura aumentava e as imagens pareciam-lhe dançar dentro do espelho, sincronizadas… às vezes não. Perdeu o equilíbrio e começou a cair. Com ele levou junto o espelho, que na queda se quebrou pelo chão frio. Sobre o seu corpo caído, agora quase extinto, espalharam-se os pequenos estilhaços, que refletiam no teto do quarto a luz matinal, desenhando no mesmo o movimento de sua respiração. E as pequenas estrelas que dançavam no teto aos poucos se acalmavam, até que repousaram.
Com sede, bebeu o café. O mesmo que preparara na noite anterior. Enquanto bebia, se lembrou do que estaria fazendo se ainda estivesse empregado. O café estava amargo, mesmo assim continuou a beber. Abriu as cortinas empoiradas, tossiu. Sentou-se ao pé da cama, ainda a olhar-se no espelho. A luz da manhã já começava a iluminar o cômodo quando se indagou: “quem era aquele atrás do espelho?”. Não era mais filho de seus pais – que Deus os tenha – seus amigos agora já não eram, esposa nunca teve – quanto menos filhos – e perdera o emprego. O diretor da indústria resolvera diminuir os gastos e com isso, junto a ele, dezenas de outros empregados deixaram de ser… empregados. Já não era nem filho, nem amigo, ou marido ou pai. Não era.
Aproximou-se do espelho procurando interpretar as pequenas imagens que separadas se formavam, porém o esforço era em vão: elas já não faziam sentido. Aliás, já não faziam sentido há algum tempo, porém só hoje fora capaz de perceber. Estava tonto. Há algum tempo já não comia, e também não sentia fome, nem mais sede, nem nada além de frio. Apenas o frio que lhe subia as pernas, e como suas veias se espalhava pelo corpo, penetrando por entre os músculos, por entre os ossos… E também não tremeu, já não era necessário fazê-lo.
A tontura aumentava e as imagens pareciam-lhe dançar dentro do espelho, sincronizadas… às vezes não. Perdeu o equilíbrio e começou a cair. Com ele levou junto o espelho, que na queda se quebrou pelo chão frio. Sobre o seu corpo caído, agora quase extinto, espalharam-se os pequenos estilhaços, que refletiam no teto do quarto a luz matinal, desenhando no mesmo o movimento de sua respiração. E as pequenas estrelas que dançavam no teto aos poucos se acalmavam, até que repousaram.





